Conheça o imortal poeta de Conceição do Mato Dentro

Postado por Daniel Araújo em 22 de dezembro de 2018

Afonso Henriques da Costa Guimarães, que passou a assinar como Alphonsus de Guimaraens, foi um dos grandes nomes da poesia nacional que Minas Gerais nos deu. Embora nascido em Ouro Preto, passou dez anos em Conceição de Mato Dentro, onde escreveu seu Setenário das Dores de Nossa Senhora.

Os dez anos mais importantes de sua vida e obra, sem sombra de dúvida.

O “doutor-poeta” de Conceição

Durante a juventude, sua formação foi em Direito, começando a cursar na Faculdade de Direito de São Paulo. Na capital paulista, ao lado do estudo das leis, entregou-se ao jornalismo. Com a criação da Faculdade Livre de Direito em Ouro Preto, o poeta se transfere para lá e conclui o curso em 1894. No ano seguinte, por indicação do primo, o poeta seria nomeado promotor de justiça da comarca de Conceição do Mato Dentro (na época chamada de Conceição do Serro), logo depois assumindo o cargo de juiz substituto.

O poeta passaria muitos anos em Conceição, onde casou com Zenaide, filha de um escrivão, com quem teve 15 filhos. Diz-se que Alphonsus frequentava assiduamente a loja em frente a casa do escrivão para contemplar a beleza da moça pela janela da casa. Para ela, teria escrito a canção XV de Pastoral aos Crentes do Amor e da Morte:

Existem junto da fonte,
Crescidas à luz do luar,
Duas árvores defronte
Da janela do teu lar.

O coqueiro e o cinamomo
Nasceram do mesmo chão…
De noite são tristes como
Quem morre do coração.

A fonte dorida chora
Por entre seixos de luar,
Quando se fecham, Senhora,
As janelas do teu lar.

E o coqueiro, todo em palmas,
Beija o cinamomo em flor…
Imagem das nossas almas
Unidas no mesmo amor!

O casamento aconteceu em 20 de fevereiro de 1897. Foi justamente entre o período de 1896 e 1898 que o poeta escreveria o Setenário das Dores de Nossa Senhora, obra que seria lançada somente em 1899 no Rio de Janeiro. Mas em Conceição do Mato Dentro, entre o ofício jurídico e o poético, Alphonsus nunca abandonou a carreira jornalística, escrevendo para A Gazeta regularmente. Suas contribuições eram crônicas satíricas e comentários humorísticos, o que dizia muito do perfil de Alphonsus, homem muito espirituoso.

Seu trabalho com Direito, jornalismo e poesia lhe valeram a alcunha de “doutor-poeta” entre a gente de Conceição.

Posteriormente, em 1903, o estado de Minas Gerais suprimiu o cargo de juízes substitutos e Alphonsus se viu em difícil situação financeira. A solução veio de um amigo, então presidente da Câmara Municipal de Conceição: a criação de um jornal oficial do município, O Conceição do Serro, para ser dirigido pelo poeta.

O poeta seria nomeado em 1906 juiz de Mariana, o que marcaria o fim de sua estadia em Conceição.

O solitário de Mariana

Devido ao período que viveu em Mariana, ficou conhecido como “O Solitário de Mariana”. O apelido lhe foi dado devido ao isolamento completo em que viveu. Sua vida, nessa época, passou a ser dedicada basicamente às atividades de juiz e à elaboração de sua obra poética.

Em 1919, pouco antes do seu falecimento, recebeu a visita do poeta Mário de Andrade. Apesar de sua obra poética já ser conhecida e aclamada em todo país, o poeta permanecia isolado e esquecido em Mariana. Mario de Andrade publicou um texto sobre essa visita:

“Em Mariana, a Católica, fui encontrá-lo na escuridade da sua casa de trabalho, sozinho e grande. Escrínio mais profundo que a episcopal cidade não encontrara a sua alma de místico para se guardar. […] E foi uma hora de inesquecível sensação a que vivi com ele. Na tristura de cinza do aposento, pude dizer-lhe pausadamente, em calma, as lindas coisas que eu sentia sobre a sua arte desacompanhada e incompreendida. […] Falei-lhe depois do descaso em que o deixaram os nossos. Sorriu, num meigo perdão; e recompensou-me o afeto, dando-me versos”.

As informações desse artigo foram retirados do ensaio Alphonsus de Guimaraens em Conceição do Mato Dentro, de Afonso Henriques Neto, publicado na nova edição do Setenário das Dores de Nossa Senhora.

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