UMA CIDADE CONSTRUÍDA SOB O SIGNO DO SAGRADO

Postado por Circuito Cultural em 27 de agosto de 2018

A religiosidade marcante do povo serrano é uma tradição reverenciada e mantida há séculos

Tanto quanto o brilho reluzente do ouro e dos diamantes extraídos da sua terra, a cidade de Serro foi criada sob o signo do sagrado. Muito antes dos primeiros religiosos que por aqui aportaram, toda a região da Serra do Espinhaço já era povoada de mitos e lendas, como os da “Serra resplandencente” e da “Terra brasilis. De tudo isso emerge uma autêntica alma mineira.

Com a descoberta do ouro, e depois dos diamantes, formou-se um verdadeiro caldeirão cultural religioso, com ingredientes fornecidos pelos povos pré-históricos e encontrados nas inscrições de suas cavernas, pelos índios e sua adoração a elementos da Natureza, pela herança ibérica dos bandeirantes, pelos mistérios dos templários e pelo sincretismo dos negros que trouxeram da África seus santos e orixás.

No início do povoamento de Vila do Príncipe a Igreja era subordinada à Coroa, que controlava as nomeações eclesiásticas por meio do Padroado Real. O papel da Igreja era defender as normas e valores religiosos e auxiliar na manutenção do controle real por meio dos registros de nascimentos, óbitos e matrimônios, cabendo aos religiosos mais um poder político do que de evangelização. Nem por isso a Igreja deixou de ter um importante papel na colonização e na formação da estrutura social da região.

 

São muitos os santos e santas reverenciados e homenageados nas históricas igrejas do Serro

PADRES AVENTUREIROS

Os primeiros religiosos a aportarem em Vila do Príncipe eram também aventureiros que acompanhavam os bandeirantes e homens comuns em busca do ouro descoberto nas minas das Gerais. Acompanhando as expedições e trazendo oratórios com imagens dos santos da sua devoção, os primeiros capelães construíam altares para a realização das cerimônias religiosas. O primeiro padroeiro foi Santo Antônio. (Historiadores apontam o padre Canjica como celebrante da primeira missa em território mineiro, no ano de 1696. Registros dessa época apontam outros padres, como João de Faria Fialho, Roque Pinto de Almeida, frei José de Jesus e Francisco de Oliveira Barbosa, que teria sido o primeiro vigário das Minas.)

Em 1706 já eram celebradas missas nas vilas que se formavam. O primeiro vigário de Vila do Príncipe, logo após a descoberta do ouro, foi o padre Antônio Mendanha de Sotto Mayor, que também exerceu vários outros cargos. Ele veio do Rio de Janeiro, onde foi casado e teve muitos filhos. Depois de ficar viúvo, deixou sua imensa prole e recebeu as ordens sacerdotais, fixando-se próximo ao arraial do Tijuco, onde manteve uma fazenda que mais tarde recebeu o nome de Mendanha.

No início, Vila do Príncipe era subordinada a Mariana. Somente depois é que foi instalada a primeira Paróquia e, posteriormente, a Vigaria Colativa, criada por Carta Régia datada de 26 de fevereiro de 1724. As atividades mais rigorosas da Igreja Católica na antiga vila eram as chamadas correições, feitas em conjunto com o Legislativo local. A presença da Igreja Secular na região foi regularizada em 1745, com a criação do Bispado de Mariana.

 

A inabalável fé dos católicos serranos deu origem a grandes obras de artes

“PRETO SANTO”

Nessa época, conforme o mapa da Paróquia, a Matriz de Vila do Príncipe era responsável por um universo de 8 mil almas. O trabalho de “cura” estava a cargo do pároco Manuel Joaquim Perpétuo, do padre Silvério Teixeira Coelho e dos reverendos Bento de Araújo e Abreu e Manuel Francisco da Silva, “doutor vigário” da Vara, além do escrivão do Cartório Eclesiástico, Joaquim Pedro de Cássia. O mais longevo padre foi Marcelino Nunes Ferreira, que ficou conhecido como “o preto santo”. Nascido em Itabira, mas serrano por adoção, ele atuou por 53 anos como pároco do distrito de São Sebastião dos Correntes (Sabinópolis), onde faleceu, em 1901.

Outros religiosos pioneiros do Serro foram o cônego Bento Alves Gondim, que tornou-se o orientador final das obras do templo do Bom Jesus, em Conceição do Mato Dentro, o primeiro procurador-geral da Irmandade, e depois elegeu-se deputado à primeira Junta Eleitoral de Minas, em 1821; e Dom Epaminondas Nunes de Ávila e Silva, mais conhecido como padre Nondas, que nasceu no Serro (1869) e, em 1892, assumiu como auxiliar do vigário da cidade, padre José Maria Reis, depois pároco e bispo, em 1909, quando se transferiu para Taubaté (SP).

A maior riqueza, desde a Vila do Príncipe até o atual Serro, está exatamente nessa fusão de tradição, folclore e religião, que gerou um sentimento que dá unidade em meio a tantas diferenças: a fé, que se expressa de forma intensa e vigorosa na arquitetura, em monumentos, rituais, celebrações e festejos.

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