CHICA DA SILVA: A RAINHA DAS AMÉRICAS

Postado por Circuito Cultural em 14 de agosto de 2018

Chica da Silva e suas mucamas, em ilustração de Carlos Julião de 1770

Chica da Silva, a emblemática escrava que virou mito na região do Serro, vai ganhar novamente as telas de cinema. Desta vez, a escrava nascida no distrito de Milho Verde, que no Império causou grande alvoroço e se tornou uma das mulheres mais poderosas do Brasil no Século XVIII, após se tornar a mulher do contratador João Fernandes, com quem teve 13 filhos, será tema de um documentário.

“Rainha das Américas” é o título do filme, que está sendo finalizado pela roteirista Rosi Young, que desde 1986 vive nos Estados Unidos. Ela pretende reconstituir a vida, e o rosto, da antiga escrava, que já foi tema de outros filmes, novela e músicas, por intermédio de artistas como Cacá Diegues e Jorge Benjor.

O projeto de Rosi Young é audacioso. E começou pela exumação do corpo de Chica da Silva, em novembro de 2015, em Diamantina, onde estão sepultados os restos mortais de muitos poderosos do Brasil Colônia. Os restos mortais da ex-escrava ficaram nos EUA até maio de 2017, quando foram devolvidos ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), em Minas Gerais. Após várias análises e a reconstituição do seu crânio, por especialistas brasileiros e norte-americanos, constatou-se tratar-se de “uma mulher de ancestralidade africana, de idade entre 30 e 50 anos”, e que seria muito bonita.

A previsão é que o documentário seja concluído em novembro próximo e lançado em 2019. E, para dar “corpo” à “Rainha das Américas”, papel que outrora foi de Zezé Mota e Taís Araújo, entre outras atrizes famosas, foi escolhida a modelo Gerlen Moura, de Teófilo Otoni – outra coincidência, da cidade cujo nome homenageia um dos mais ilustres personagens do Serro.

A ESCRAVA QUE MANDAVA

Francisca da Silva, uma mulata filha de uma escrava mina e um português, talvez seja a figura mais ilustre do distrito de Milho Verde – onde nasceu numa data incerta, entre 1731 e 1735 –, e uma das mais controversas personagens de toda a região do Serro. Ela ganhou um lugar na História graças à sua relação com o contratador dos diamantes João Fernandes de Oliveira, de quem foi concubina por 16 anos e com quem teve 13 filhos, e virou “figura carimbada” nos romances, no cinema e na televisão, apresentada ora como heroína, ora como perdulária, megera e “devoradora de homens”.

Xica da Silva, como aparece grafada em documentos históricos, virou um mito, reforçado pelos versos de Cecília Meireles em “Romanceiro da Inconfidência”: “Contemplai, branquinhas/ na sua varanda,/ a Chica da Silva,/ a Chica-que-manda.” De Milho Verde ela foi para o Tijuco (Diamantina), em 1749, onde frequentava as rodas da sociedade branca e elitista do século XVIII. Seus quatro filhos estudaram em Portugal, e suas nove filhas, nas melhores escolas da região do Serro. Ela foi, também, proprietária de escravos e cultivou hábitos que horrorizavam seus contemporâneos, inclusive quando morreu e teve o corpo sepultado no cemitério da Igreja de São Francisco de Assis, em Diamantina (tumba nº 16), privilégio exclusivo para os endinheirados daqueles tempos.

A atriz Zezé Motta foi uma das intérpretes de Chica da Silva na TV

LITERATURA E CINEMA

Nascida cativa do juiz ordinário Manuel Pires Sardinha, que a tomou por amante na adolescência, Chica da Silva foi batizada numa igreja primitiva de Milho Verde. Ela foi vendida, em 1753, por 800 réis, para o filho do contratador João Fernandes, de mesmo nome, logo após a sua chegada ao então arraial para explorar o quarto contrato de exploração das minas de diamantes instituído pela Coroa portuguesa.

Doutor em Coimbra, João Fernandes, o filho, alforriou a espevitada negra e com ela iniciou um romance escandaloso para a época. Eles viveram juntos entre 1755 e 1770, quando João Fernandes teve que retornar a Portugal, devido à morte do pai, deixando-a no Tjuco. O filho do contratador viria a falecer em 1779, no dia 18 de março, e 17 anos depois seria a própria Chiica a deixar a vida para entrar na História.

Como personagem literária, Chica da Silva surgiu no século XIX, quando sua história foi “descoberta” pelo advogado diamantinense Joaquim Felício dos Santos. Contratado para atuar na partilha de bens de um parente da antiga escrava, ele levantou informações e os bens por ela deixados, e a retratou no livro “Memórias do Distrito Diamantino”, de 1868.

A Chica da Silva de Milho Verde e do Tijuco, ao que consta, escondia a cabeça raspada sob perucas bufantes, tinha “feições grosseiras” e “não possuía graças, não possuía beleza, não possuía espírito, não tivera educação, enfim, não possuía atrativo algum que pudesse justificar uma forte paixão”, como escreveu o autor de “Memórias do Distrito Diamantino”.

Feia ou bonita, não importa, ela saiu do anonimato de Milho Verde e da Vila do Tejuco para entrar para a História como a Chica que mandava.

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