NOSSA SENHORA DO ROSÁRIO: O ANO TODO DE FESTA

Postado por Circuito Cultural em 8 de outubro de 2019

Imagem de Nossa Senhora do Rosário

A Festa de Nossa Senhora do Rosário é uma das celebrações mais populares e tradicionais de Minas Gerais. Praticamente, em cada cidade ou vila histórica mineira há uma igreja ou capela dedicada à Senhora do Rosário. Particularmente, gosto muito da capelinha de Milho Verde, distrito do município do Serro. A respeito dela diz o Guia Cultural do Serro:

“Para o historiador Affonso Ávila, a Capela do Rosário de Milho Verde é um exemplo de “apropriação popular” de modelos eruditos, que ele chama de “barroco estradeiro”.

Capela de Nossa Senhora do Rosário de Milho Verde

Se quiser saber mais sobre o Serro, a primeira cidade brasileira a ter o conjunto urbanístico e arquitetônico tombado pelo IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), clique AQUI.

Ao contrário das celebrações de outros santos da Igreja Católica, que têm dias fixados no calendário, as Festas de Nossa Senhora do Rosário se distribuem por todo o ano em Minas Gerais. Algumas têm datas móveis, como a do Serro, que é realizada, sempre no primeiro final de semana do mês de julho. Outras acontecem em dias pré-determinados como a de Conceição do Mato Dentro, que ocorre entre os dias 29 de dezembro e 1 de janeiro, confundindo-se com as comemorações de réveillon.

Agora vem o mais curioso: por que ocorre esse fenômeno incomum com as celebrações em louvor a Nossa Senhora do Rosário, especialmente em Minas Gerais. Veja a seguir.

Aparição de Nossa Senhora na Batalha de Lepanto

História e tradição

Há basicamente dois fatores que fazem as festas de Nossa Senhora do Rosário serem celebradas em várias datas durante o ano. Vamos começar pela origem da celebração lá pelos idos do século XVI, quando tudo indicava, como hoje, que os muçulmanos iriam conquistar definitivamente a Europa e transformá-la num califado.

O sultão (título do imperador turco) já contava com a vitória certa. Em uma de suas bravatas, afirmara que seu cavalo haveria de comer alfafa sobre o altar da Basílica de São Pedro, o símbolo máximo da cristandade europeia.

Na época o Papa era São Pio V (1566-1572) que, a duras penas, conseguiu formar a Santa Liga Cristã, composta por Espanha, Veneza e Malta, para combater os turcos otomanos, que avançavam conquistando as cidades europeias, estuprando mulheres e exibindo cabeças degoladas em praça pública como troféus. Dessa guerra saiu um dos maiores feitos militares de todos os tempos, a batalha naval de Lepanto, envolvendo mais de 400 navios e 80 mil soldados.

Lepanto é uma cidade na costa da Grécia, que até hoje vive da exploração da maior batalha naval da história como produto turístico. Mas no dia 7 de outubro de 1571 a coisa foi bem diferente. Naquele dia, o almirante turco Muezzinzade Ali-Pasha entrou com seus navios na baía de Lepanto certo de que acabaria com a Santa Liga, que estava em franca desvantagem em número de soldados e de navios.

Não contava com a astúcia e coragem de D. João da Áustria, um devotíssimo cristão de fina estirpe, filho de Carlos V e irmão de Felipe II da Espanha, que, com 26 anos de idade liderou o contra-ataque turco de pé na proa de sua galeaça de guerra, imenso navios de combate, armado com canhões que disparavam balas de até 25 quilos. O escritor Chesterton conta que D. João, antes da batalha, bradou aos seus soldados: “Meus filhos, estamos aqui para vencer ou morrer. Vencendo ou morrendo, nós conquistaremos a imortalidade”.

E conquistaram mesmo. Veja esse artigo sobre a Batalha de Lepanto.

Mas onde Nossa Senhora do Rosário entra nessa história? Vamos conhecer então a origem dessa devoção.

Imagem de Nossa Senhora do Rosário do Serro

A história de Nossa Senhora do Rosário

 A batalha de Lepanto foi considerada miraculosa. Apenas a bravura e coragem de D. João da Áustria e as poderosas galeaças venezianas não seriam suficientes para explicar a vitória. Aqui entra também a astúcia e a fé do grande Papa São Pio V. Enquanto os soldados cristãos estavam em batalha, o líder católico convocou todos os cristãos e as confrarias de Nossa Senhora para rezarem o rosário permanentemente, além de promover pias procissões e incentivar a prática de penitências e jejuns.

Conta-se que na noite da batalha, o santo Papa foi até a janela do seu escritório e viu no céu uma visão da vitória da Santa Liga sob a proteção da Virgem do Rosário. Imediatamente, cheio de fervor, dirigiu-se aos cardeais que estavam com ele dizendo: “Vamos dar graças a Deus: nossa armada saiu vitoriosa!” A notícia da vitória só chegou a Roma 19 dias depois, em 26 de novembro, quando já se estava comemorando o milagre a partir da revelação de São Pio V.

A repercussão da batalha de Lepanto deu um sopro de fé na cristandade e reforçou a devoção mariana. São Pio V acrescentou às Ladainhas de Nossa Senhora uma nova invocação nova: Auxílio dos cristãos. Também ordenou a instituição da festa de Nossa Senhora das Vitórias, que se espalhou pela Europa associada à prática da oração do rosário.

Ainda temos um segundo capítulo dessa história. Dessa vez, em 1716, sob o pontificado de Clemente XI. Novamente eles, os turcos, avançavam pela região do mediterrâneo, ameaçando a cristandade e o papa não conseguiu formar uma nova Santa Liga. O único rei a atender aos pedidos do Vaticano foi o português D. João V, o Magnânimo, avô do nosso João VI. A armada portuguesa teve nova vitória espetacular e o Papa instituiu naquele ano a Festa de Nossa Senhora do Rosário que deveria ser celebrada por todo o império português sem data definida.

Até aqui falamos só do primeiro fator que fez as festas de Nossa Senhora do Rosário serem celebradas em várias datas durante o ano. O segundo fator que vamos conhecer agora está relacionado com a história de Minas Gerais.

Grupo de catopês em devoção a Nossa Senhora do Rosário

Nossa Senhora do Rosário dos Pretos

A instituição da Festa de Nossa Senhora do Rosário foi instituída por Clemente XI em 1716, cerca de duas décadas depois das descobertas do ouro em Minas Gerais. A novidade trazida pelos missionários cristãos se popularizou rápida e intensamente entre os milhares de negros escravos que trabalhavam nas minas.

Vivendo em condições sub-humanas e com poucas possibilidades de sobrevivência e de liberdade do jugo da escravidão, os escravos se apegaram à proteção de Nossa Senhora do Rosário, que, tradicionalmente, sempre ajudava os mais fracos e sem condições de vitória ou sobrevivência. Esse mote, da predileção de Nossa Senhora pelos negros em função da sua situação de inferioridade social, está presente nas encenações dos vários Reinados Congos ou Congadas, que são a maneira própria dos negros celebrarem a festa da sua santa protetora, num misto de devoção e manifestações folclóricas marcadas por danças, músicas, vestuário, adereços e alimentos típicos.

Assim espalharam-se irmandades leigas de Nossa Senhora do Rosário por todas as vilas e cidades mineiras do ciclo do ouro. As celebrações eram muito concorridas, pois eram praticamente o único momento festivo permitido aos escravos, e atraíam devotos de várias localidades. Havia ainda uma disputa entre as várias irmandades pela realização da celebração mais pomposa e “rica”. Logo, não era conveniente que todas as festas ocorressem numa mesma data e as irmandades foram se organizando de modo a realizar suas celebrações em datas exclusivas, criando esse amplo calendário que atravessa todos os meses do ano.

Além disso, a Igreja Católica só veio a fixar a data de 7 de outubro como Dia de Nossa Senhora do Rosário no século XX, em 1913, no pontificado de São Pio X. Nessa época, o prestígio das irmandades em Minas Gerais já havia passado e o calendário das celebrações já estava consolidado, permanecendo até hoje.

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